Olá amigos(as)
Muitos me têm dito que eu deveria ser mais "egoísta". Pensar mais nos meus interesses sem sentir culpa ou compaixão pelos dos outros
O Mundo continua girando sem mim.
A minha família também continuaria sua rotina se não estivesse tão presente.
Pode até ser verdade.
E entre ontem e hoje, eu senti isso mais profundamente.
Acredito que tenho um casamento com um homem abusador.
Não, ele nunca foi fisicamente violento comigo. Nunca levantou sua mão.
Acontece apenas que eu sou seu "saco de pancada".
Quando tem problemas, está irritado, nervoso ou de mal consigo mesmo, acaba descarregando toda a sua energia negativa em casa. Implica comigo, implica com a filhota, implica com os cães... GRITA.
Nesses momentos, ele se alivia fazendo arrumação à casa e tudo o que encontra em mau estado ele atira para o chão partindo os objectos.
Claro que espera que eu e a filhota vamos apanhar "os cacos" que ele atirou e ele se sente mais feliz por nos humilhar.
Eu sei bem que ele tem várias preocupações importantes, mas nenhum dos outros membros da família tem qualquer culpa.
São preocupações financeiras, são preocupações de identidade (ele optou por deixar de trabalhar após seu acidente de moto há 3 anos), são preocupações relacionadas com a idade (tem agora 60 anos e tenta que o vejam como um jovem irreverente).
Mas como eu dizia: NÓS NÃO TEMOS CULPA. EU NÃO TENHO CULPA !
Não posso continuar a sentir medo do seu comportamento quando está nervoso. Não posso continuar a aceitar as constantes humilhações.
PIOR AINDA: Não posso deixar transparecer para a filhota F que o pai é verbal e comportamentalmente agressivo. Sempre tento encontrar uma justificação para esses momentos.
Ontem ocorreu mais um incidente semelhante. Não é importante contar aqui os pormenores.
Ontem foi sexta-feira e, como sempre, nos preparamos para sair da casa da cidade para vir à da aldeia.
Ainda na casa do Porto, ele me desconsiderou.
Mesmo assim, e em prol da filhota F e da coesão familiar, eu os acompanhei.
Claro que quando chegamos à casa da Aldeia, ele teve que atirar para o chão do jardim todos os artigos dos cães que trouxéramos connosco. Não podiam ficar dentro da casa.
Mais uma vez, eu não soube como reagir. Apenas fui reunir os objectos caídos e arrumá-los novamente.
Hoje, sábado, decidi que não podia continuar suportando sua presença. Decidi que tomaria um comboio e regressaria sozinha à casa do Porto. Precisava tempo para arrumar as minhas ideias. Só estava pensando em suicídio como forma de sair desta embrulhada e sabia que isso não era solução ! Mas não conseguia deixar de sentir dessa forma.
Pelo menos, uma vez na vida, eu iria ter o controlo e o destino nas minhas mãos. Depois de eu acabar, bem que podiam ralhar, dizer mal, fazer o que quisessem, pensar o que quisessem... Eu já não iria ouvir nada ! Nada me poderia machucar.
Ao mesmo tempo não conseguia deixar de pensar no mal que faria à filhota F.
Como podia eu deixá-la sozinha com o pai? Seria ele capaz de assumir o meu papel?
Claro que sim. Ninguém faz falta quando não está presente!
Mas... como reagiria ela? Sentiria como eu, a falta de sensibilidade do pai?
Que consequências meus actos teriam na sua vida?
Não podia arriscar com ela.
Tomei uma decisão: Preciso ficar sozinha e arrumar as minhas ideias. TENHO QUE REGRESSAR AO PORTO SOZINHA!
Fui a primeira a me levantar. Fui compondo mentalmente o meu discurso para o informar que não ficaria durante o fim de semana.
Pelo meio dia a filhota F acordou.
Notou que eu estava com mau aspecto e compreendeu os motivos. Me abraçou e isso foi como que o abrir de uma porta para toda a minha fragilidade.... Chorei compulsivamente e fiz o que não devia ter feito:
Desabafei meus problemas em quem tem ainda mais que eu!
Ela foi forte. Me confortou. Entendeu que eu precisava de tempo para pensar.
Mais tarde apareceu o meu marido. Informei-o de que não iria ficar. Nada de especial. Tinha umas coisas para arrumar na cidade (não era de todo mentira...)
Pediu-me para não ir. Que ficasse com ele. A minha partida seria pior...
Pedi à filhota que saísse da casa para o jardim e iniciei uma conversa séria em que propus nos separássemos. Nenhum de nós parecia ser feliz nesta relação.
Ele tem uma habilidade especial de retórica e parecia sempre responder sem ter dado qualquer resposta . Argumentou que anda nervoso, que eu não o entendo, que eu o acuso de ser o "mau da fita",... enfim: Parecia que eu é que estava errada.
Afirmei que partiria de qualquer forma, a menos que ele justificasse porque queria que eu permanecesse com ele. NÃO CONSEGUIU DIZER NADA AGRADÁVEL. Apenas continuava insistindo, agora com voz mais suave, que queria que eu ficasse.
Entretanto a Filhota começou a entrar e sair da sala onde estávamos conversando. Percebi que ela estava preocupada.
Acabei por aceitar ficar na Aldeia.
Mais uma vez nada resolvi. Apenas adiei o problema.
O meu único consolo é que eu lhe disse exactamente isso:
Nada resolvemos. Apenas adiamos!
Estou casada há 28 anos ! Certamente que tivemos bons momentos; mas nestas alturas não me consigo recordar de nada. Restam-me apenas sensações de afectos momentâneos e logo depois estragados com uma qualquer verborreia verbal.
Uma coisa é certa: Não posso comprometer o tratamento e recuperação da Filhota F ! Eu sei que ela precisa de mim!
Hoje, realmente não foi um bom dia para mim, mas fiquei orgulhosa da força que a Filhota demonstrou nesta crise familiar. Só espero que este momento não venha agravar seus estados depressivos que seguramente ainda irão ocorrer. Afinal ela sofre de síndroma Borderline !
Mais uma vez, para os que tiveram a paciência de me ler até ao fim... O meu MUITO OBRIGADA !
Com um abraço muito forte,
Carla